Estudo sobre o Câncer de Mama

Avanço no diagnóstico e tratamentos mais específicos são aliados de médicos e pacientes no combate ao câncer de mama

Até o fim do ano, serão contabilizados, em todo o Brasil, cerca de 50 mil casos de câncer de mama. Tipo mais temido pelas mulheres, justamente devido à alta incidência e efeitos psicológicos devastadores sobre a percepção da sexualidade feminina, o câncer de mama é uma das maiores causa de morte entre as mulheres brasileiras. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), de todos os casos registrados estima-se que de 10 mil a 11 mil evoluam para óbito.

A boa notícia é que a batalha contra a doença vem ganhando reforço. Métodos de diagnósticos mais avançados e tratamentos mais eficazes, especialmente no que diz respeito à expectativa de cura e diminuição de efeitos colaterais, são as principais armas da medicina na luta contra a doença.

A grande promessa, entretanto, vem da genética. É graças a ela que, atualmente, se pode realizar o mapeamento dos genes da paciente e, havendo predisposição, investir em providências para impedir que o problema apareça. Outra possibilidade é aumentar a sobrevida de pacientes e até a expectativa de cura, especialmente na presença de formas severas de câncer, como o tipo HER 2 positivo, diagnosticado em 25% dos casos confirmados da doença.

“A cura do câncer está mesmo na genética”, acredita o especialista André Murad, oncologista do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A descoberta desse tipo de câncer - para o qual até pouco tempo não existia tecnologia de diagnóstico -, permitiu o desenvolvimento de um medicamento específico (o anticorpo monoclonal), que age, sobretudo, nas células doentes. “A identificação do HER2 positivo é um dos principais avanços no tratamento do câncer de mama”, considera Enaldo Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia. Para ele, entretanto, o papel mais importante no controle da doença continua sendo o da mulher, com a realização do auto-exame das mamas. “O diagnóstico precoce ainda é o melhor remédio para salvar vidas”, diz.

Mulheres conscientes

Uma série de campanhas organizadas por entidades ligadas à saúde feminina pretende alertar as mulheres sobre os vários tipos de câncer de mama

A possibilidade de salvar vidas, graças ao simples toque das mãos, tem levado entidades ligadas ao tratamento do câncer de mama a criarem uma série de campanhas. A última delas aconteceu essa semana, em Belo Horizonte, justamente para marcar o Mês Mundial de Conscientização sobre o Câncer de Mama.

A realização do evento não aconteceu por acaso. Batizado de “Mulher consciente”, o objetivo da Associação Brasileira de Câncer (ABC) foi alertar a população sobre a necessidade do auto-exame e, principalmente, fornecer informações sobre um tipo da doença ainda pouco conhecido - o HER2 positivo.

“Muito se fala sobre o câncer, mas a maioria das pessoas não sabe que existem tipos diferentes. Dessa forma, não têm como exigir do médico testes específicos, capazes de diagnosticar com eficácia as variações”, alerta Vitória Herzberg, presidente da ABC.

O HER2 é o tipo mais grave de câncer de mama. Ele é resultado de uma mutação genética e a evolução da doença é mais rápida. Segundo o oncologista André Murad, do Hospital das Clínicas da UFMG, o gene mutante produz uma proteína que provoca o crescimento exagerado das células doentes, levando a uma progressão rápida do câncer e ao surgimento de metástases.

Outro problema é que o HER2 é mais resistente aos tratamentos convencionais, o que leva o número de óbitos ao patamar de 80%. “Há 20 anos, sabíamos que existia um tipo diferente de câncer. Entretanto, só recentemente tivemos a chance de diagnosticá-lo e, melhor, a chance de desenvolver um tratamento com medicação voltado exclusivamente para esse tipo da doença”, comenta o especialista.

O exame para diagnosticar o HER2 positivo está disponível na rede pública de saúde e é obrigatório. A técnica, chamada imuno-histoquímica, consiste na retirada de um pedaço do tumor para que seja feita biópsia.

Em caso positivo, o medicamento age preservando as células normais. Entretanto, deve ser usado em combinação com a quimioterapia. Se a doença já progrediu para metástase, o uso do anticorpo monoclonal aumenta em 40% a sobrevida da paciente. Em fases iniciais da doença, a taxa de cura aumenta em 50%.

Foi o que aconteceu com a aposentada Sueli de Paula, de 58 anos. Depois do diagnóstico, várias cirurgias e longos anos de tratamento, ela agora comemora o fato de estar curada. “Fiquei arrasada quando descobri a doença, perdi o chão. Hoje, encaro o problema com naturalidade e tento animar as pacientes que estão começando a viver o mesmo drama que eu vivi. Fazer o tratamento adequado ao tipo HER2 fez toda a diferença”, comenta.

CONTROLE A possibilidade de cura também deu ânimo novo para Andréa Rodrigues Lima, de 40 anos, bancária aposentada. O HER2 positivo foi diagnosticado há cinco anos, alguns meses depois que ela identificou um nódulo no seio, ao realizar o auto-exame das mamas.

A doença se espalhou rapidamente, atingindo o fígado e o cérebro. Mesmo assim, ela resistiu e está na fase final do tratamento do câncer no fígado. Os outros dois foram controlados. Andréa sequer precisou fazer mastectomia e, embora os médicos não consigam explicar, também conseguiu engravidar três anos depois de iniciado o tratamento da doença. O caso foi parar em congressos médicos e, mesmo com todos os fatores conspirando contra, a gravidez transcorreu de forma tranqüila.

Assim que ficou sabendo que estava grávida, a bancária optou por interromper a quimioterapia, embora corresse riscos. Ao fazer novos exames, depois do nascimento da filha, teve a grata surpresa de saber que a doença havia regredido. “Não tenho dúvidas de que a Maria Clara tenha vindo para me ajudar na cura. Apesar de tudo, não me lamento pela doença. Ao contrário, acho que o câncer só me trouxe coisas boas: a minha filha, a possibilidade de me livrar de uma perseguição profissional e a reformulação dos valores de vida. O câncer fez de mim uma pessoa melhor”, afirma.

Saiba mais

• O tratamento com as novas drogas de ação molecular é feito depois da cirurgia, modalidade terapêutica inicial mais comum. Sua função é impedir o ressurgimento da doença. A maioria dos tumores em estágio inicial pode ser removida por cirurgia, mas isso não significa necessariamente que a paciente fica curada do câncer.

• Por 30 anos, o tamoxifeno foi considerado o medicamento padrão para o tratamento do câncer de mama inicial em mulheres que já haviam passado pela menopausa.

• Sem tratamento adicional, o câncer tem alta probabilidade de retornar e se espalhar para outras partes do corpo, o que pode ser devastador física e psicologicamente, além de levar à morte. Esse processo é especialmente comum nos primeiros cinco anos de acompanhamento depois da cirurgia.

• Na chamada recorrência local, o câncer retorna na mesma mama que o originou, na área da mastectomia ou nos linfonodos da axila. Enquanto o câncer permanece nos estágios iniciais, o prognóstico é normalmente bom. Entretanto, alguns estudos mostraram que, uma vez que o câncer recorre localmente, é muito provável que ele já tenha se disseminado para outras partes do corpo. Por essa razão, o objetivo primário da terapia é prevenir a recorrência.

• Já no caso da recorrência a distância, o câncer se espalha a partir de seu local de origem para outras partes do corpo (como ossos, pulmões, fígado ou cérebro) e forma o que é conhecido por ‘tumores secundários’ ou ‘metástases a distância’. Quando o câncer é disseminado desse modo, a mulher é classificada como tendo câncer de mama avançado ou metastático, e se encontra frente a um diagnóstico potencialmente fatal. No momento, não há cura para o câncer de mama metastático. O tratamento apenas ajuda a reduzir a velocidade da progressão da doença e aliviar os sintomas.

• A recorrência a distância está, dessa maneira, intimamente ligada à sobrevida geral. O câncer difundido para locais distantes do corpo é praticamente incurável. Apesar de haver tratamento para reduzir a velocidade de progressão da doença, as terapias atuais não salvam vidas.

• A partir dos 35 anos, a mamografia deve ser considerada como um exame de rotina, já que é capaz de detectar precocemente qualquer alteração nas mamas antes mesmo que o paciente ou o médico possam notá-las. De acordo com o FDA, órgão americano de vigilância sanitária, a mamografia pode detectar um câncer de mama até dois anos antes de ele ser palpável.

• A mamografia digital é um avanço da mamografia convencional e se assemelha a ela por usar raios X na produção das imagens . Porém, o sistema é equipado com receptor digital e um computador, em vez de um filme cassete. Na mamografia convencional, as imagens são gravadas em filme.

Associação de substâncias aumenta sobrevida

Novas drogas, hormônios mais modernos e quimioterápicos mais eficazes. Para os tipos de câncer que não estão incluídos nas estatísticas do HER2 - cerca de 75% dos casos -, também aumentaram as possibilidades reais de cura. Menos efeitos colaterais e menores chances de reincidência do câncer são benefícios observados, por exemplo, com a associação de duas substâncias - o tamoxifeno e o anastrozol - que, até pouco tempo, eram usadas isoladamente.

Em comparação ao tratamento contínuo feito com o uso exclusivo de tamoxifeno , a associação dos medicamentos oferece maiores chances de sobrevida às mulheres acometidas por câncer de mama, principalmente na pós-menopausa.

De acordo com estudo realizado em mulheres que já haviam recebido tamoxifeno por dois anos, a substituição do medicamento por anastrozol na segunda fase do tratamento reduziu pela metade a probabilidade de recorrência do câncer e aumentou as chances de sobrevida das pacientes.

Segundo especialistas, o tamoxifeno não é mais a melhor opção a ser oferecida às pacientes. “As mulheres que estiverem sendo tratadas atualmente com tamoxifeno devem adotar o anastrozol para que as chances de sobreviver à doença aumentem,” explica Walter Jonat, da Universidade de Kiel, Alemanha, principal pesquisador do estudo.

As tecnologias de rastreamento do câncer também estão sendo aprimoradas. A melhoria na qualidade das imagens, de acordo com os especialistas, está diretamente ligada à melhoria no diagnóstico da doença e, nessa área, a mamografia digital é a principal vedete.

Na mamografia digital, a formação da imagem tem mais qualidade e pode ser trabalhada. O aparelho digital também é mais eficaz para detectar câncer em mulheres com mamas densas, já que a faixa de contraste é mais ampla do que a da mamografia convencional. Assim, mesmo em mulheres na faixa etária abaixo dos 50 anos, é possível caracterizar melhor as lesões mamárias, já que a tecnologia digital de rastreamento de câncer permite ampliar o foco de identificação de 0,6 milímetro (na mamografia convencional) para 0,3 milímetro e 0,1 milímetro, em alguns casos.

Outra vertente das pesquisas envolvendo o câncer de mama tem a ver com a susceptibilidade da paciente. Se essa susceptibilidade for comprovada, é possível prevenir a doença. Quem tem predisposição, segundo André Murad, já nasce com a mutação e tem risco entre 70% e 80% maior do que as outras mulheres de desenvolver o problema.

Alta incidência de tumores na família, especialmente em mulheres na faixa etária abaixo dos 40 anos, é fator de predisposição que deve ser investigado. Segundo Murad, uma das opções de tratamento para as mulheres que, provavelmente, vão desenvolver câncer de mama é retirar o ovário, já que o problema está relacionado à produção hormonal.

Entretanto, para que o benefício dos novos tratamentos possa realmente causar impacto, o governo terá que se sensibilizar. No caso do HER2 positivo, o custo mensal com os medicamentos (que não estão disponíveis no Sistema Único de Saúde), pode chegar a R$ 7 mil.

No caso das novas drogas para associação com o tamoxifeno, o custo médio é de R$ 250 - um preço alto demais para a maioria da população. Segundo André Murad, o câncer de mama constitui um problema sério de saúde pública e seria melhor investir para garantir a cura do paciente do que gastar mais depois, com o doente não curado. “É uma questão de bom senso. A disponibilização do medicamento precisa ser avaliada com carinho. Pacientes que têm condições, no Brasil, têm índice de cura próximo ao de países desenvolvidos. Existem tecnologia e métodos modernos de tratamento. O que falta é vontade política.”

::Estado de Minas

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